Azinho

Eu sinto uma tristeza.
Dessas que são devagarinho,
dessas que te adoecem um pouquinho.
Que te adoecem e que te deixam sem saber como viver.
.
É a tristeza azul-clarinho,
que me tocou aqui no ninho,
que me levou pelo cantinho,
que me fez lembrar você.
.
Mas a tristeza já tem nome,
e ele é pequenininho,
ele é todo arrumadinho,
é nome que já vou dizer.
.
O nome fica bem juntinho,
o nome veio de mansinho,
o nome dela é da sua cor,
o nome dela é azinho.

Postado originalmente em Março de 2013.

O poema da casa vazia

Era uma vez uma casa
que de dia sorria.
Gargalhava e brincava, e
era só alegria.
.
E a tarde também
a casa Ninguém
vivia a sintonia.
.
Um sorria pro outro,
e era só alegria.
Surgia uma graça,
vinha então a pirraça,
desabrochava uma valsa,
e era só alegria.
.
Mas à noite,
a casa,
tão vazia e sem graça,
era vaiada na praça;
o inferno parecia.
.
Vinha uma nuvem cinzenta,
que de toda tormenta,
nem ao menos aguenta
da casa
a
sintonia.
.
Essa nuvem trazia,
desde os tempos de cria,
na testa, uma marca:
de amargura sofria.
.
Amargurada vivia,
e ia cega, vazia,
escurecer a casa,
escurecer meu dia.
.
E era sempre assim,
sempre assim,
todo dia.
Vivia bem a casa,
mas era só de dia.

Postado originalmente em Março de 2013.

Um poeminha de nada

Passou outubro
e eu não escrevi nada,
passou um mês
e não veio nada.
.
Veio eu,
veio outro eu,
veio o seu,
mas não veio nada.
.
Não vi ninguém,
não fiz nada.
Sorri pra alguém,
mas não falei nada.
.
Desci do trem,
ouvi “meu bem”,
pedi “Não vem”,
e não veio nada.
.
Olá, Novembro,
não te peço nada.
Chegue ameno,
Oh, não pedirei mais nada.
.
Mas esteja atento,
venha como o vento,
não me traga tormento,
nem me esconda nada.
.
Ah, meu amigo lento,
não me diga nada.
Desrespeitei Novembro,
posso fazer nada.
.
Se passou Outubro
e não escrevi nada,
vou musicar um poema
e criar uma balada.
.
E agora terminando,
vou quebrar essa parada.
E vou quebrando,
quebrando,
quebrando,
e quebrando.
Coisa nenhuma.

Postado originalmente em Outubro de 2012.

A narrativa de Vera Vieira

Vera Vieira
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi numa feira
 pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu alguém
que também não via um vintém
há mais de dez anos brotar;
então ele disse:
“sai daqui, ô doideira,
pois aqui nessa feira
pra ti que não há lugar!”.
.
E então Vera Vieira
era uma mulher sem eira nem beira
que um dia foi ao campo pra vida tentar melhorar.
Chegou lá e viu, num canto,
encolhido dentro de um manto,
sob a sombra de um ‘por enquanto’,
um rapaz desabando a chorar.
Aproximou-se, espiando,
recuou, no entanto,
pois foi que ele achou de gritar:
 “sai daqui, ô desgraça,
que aqui minha vida é de graça,
já sujei foi meu nome na praça,
e a ti que não vou ajudar!”.
.
E então Vera Vieira,
uma mulher sem eira nem beira,
cuidou de vagar pelo mundo, tentando uma vida arrumar.
Amarrou fita no braço,
arrumou um rapaz do cangaço,
pegou muito boi pelo laço,
e um concluir dominou seu pensar:
.
“Passei pela feira,
levei foi uma boa rasteira,
depois fui ao campo,
pra vida tentar melhorar.
Lá um rapaz, no entanto,
ao invés de secar o meu pranto,
tratou de negar-me um encanto,
e mandou, como uma vaca, ir pastar.
Passei fome,
passei frio,
passei dias e dias sob um sol cruel e ardil.
Mas uma vez ao relento,
com o céu de testemunho atento,
lamentei por ter tanto talento
pra minha vida poder arruinar.
Vou-me daqui, correndo,
pois é noite e ninguém tá vendo,
assim não posso atrapalhar.”
.
Vera Vieira,
a mulher sem eira nem beira,
com uma lágrima de bebedeira,
morreu na última terça-feira,
sob a égide lunar.

Postado originalmente em Agosto de 2012.

Ei, Barnabé!

No rodapé, Barnabé,
me joguei sem ter fé,
de que o meu quente café
alguém logo traria.

– E trouxeram?
Doido, eh, Barnabé?
Café não trazem.
Trazem água,
trazem leite,
trazem gozo,
mas o café,
o quente café,
o preto café,
o rico café,
não trazem.
Escondem, também.

– Amém?
Além!
Vintém
pra ninguém.

Barnabé:
café.
Ó: c a f é.
Ca fé.
Café é fé, Barnabé.
Café com fé.
Café.
Com fé.


Postado originalmente em Maio de 2012.

O pretérito-perfeito da rua

Saiu pela rua,
bateu com a cabeça na lua,
rodopiou como uma perua
e caiu na navalha.

Faiscou numa ponta,
desconta! Desponta
da minha frente.
Interesso-me pelo céu,
e ao léu, de véu,
sem pé, não dou conta,
de que o mistério se encontra
pra lá,
além
de mim.


Postado originalmente em Maio de 2012.