16:07

Um movimento bem tímido.

Singelo.

Discreto.

Uma escrita devagar.

Silenciosa.

Minuciosa.

Mas libertadora.

Secretamente boa.

Saudosa.

É cheirosa?

Não.

É colorida.

Agradável.

Amorosa.

É pessoal,

a minha prosa.

Espero que ninguém veja.


Esse texto foi originalmente postado aqui, no Medium.

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Minha Cama Cinza

(Das coisas legais que a gente acha perdida no caderno)

Quando parei de escrever, deixei cair a cabeça para o lado, apoiando-a de qualquer jeito no banquinho acolchoado, meio cansado. Dali, olhei para a lateral da cama e constatei que todos os dias eu durmo e acordo em cima de uma ironia descarada da vida de muita gente — inclusive da minha.

A cama, que comprei no ferro-velho, havia sido ‘repaginada’ sem que as imperfeições tivessem sido resolvidas. Pintaram a cama, que originalmente era branca — e agora, veja só, cinza — por cima dos lugares em que a ferrugem tinha descascado o metal, como se tivessem passado tinta numa parede sem reboco ou sobre a pele de alguém com alergia a picada de muriçoca.

O aspecto era horrível.

Quantos de nós somos iguais à minha cama cinza?


Esse texto foi originalmente postado aqui, no Medium.

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O enterro da minha avó — e o que aprendi hoje.

Hoje minha avó foi enterrada.

Foi complicado.

No que consiste a aglomeração que se forma de desconhecidos, mais ou menos conhecidos e familiares distantes nos velórios? Não sou nenhum especialista em enterros (esse foi o meu segundo), mas tomei essa reflexão como uma das pautas internas ao longo dessa difícil — e interminável — tarde.

Dois anos atrás, por esses mesmos dias de dezembro, estive numa circunstância parecida. Numa das salas vizinhas no corredor que, desde aquele dia, me é duramente familiar, aconteceu o velório da minha tia — irmã da minha avó. Naquele dia isso não foi um problema. Embora então me soasse estranho e incomodasse, não vi na presença de tanta gente desconhecida, necessariamente, um problema.

Hoje, vi.

Hoje, senti como uma afronta a presença de cada pessoa que não trazia o menor significado para aquele momento. Me senti ofendido por cada pessoa que descaracterizou levianamente o sentido daquela reunião sofrida e fez parecer de algum modo uma festa qualquer em um dia qualquer. Me recusei a fazer deste um dia para apresentações, como aconteceu entre alguns. Incomodou como um corte no calcanhar cada expressão de sofrimento pré-fabricada — cenho franzido, olhos quebrados com piscadas demoradas, movimentos em câmera lenta. Me soou tristemente falsa cada expressão sofrida de pessoas cuja dor eu não conhecia, cuja história não tinha nada a ver com aquela que se encerrava ali.

Eu só queria as pessoas pelas quais eu entregaria a minha própria vida em sacrifício.

A minha família.

Foi difícil vê-los chorar. A tristeza de perder minha vó foi grande, mas a dor de ver o sofrimento de cada uma daquelas pessoas que eu tanto amo foi ainda pior. A dor deles doeu fundo em mim. O desespero de alguns, a calma e a força de outros, os choros abertos e os silenciosos, cada uma dessas coisas, à sua maneira, doeu em mim.

As lágrimas que vi hoje me permitiram acesso a lugares tão profundos de pessoas tão especiais, e isso me deixa tão agradecido e honrado!

Acontece que quando choramos, expressamos algo de tão profundo e íntimo sobre quem somos, que cabe às pessoas ao redor uma postura de respeito inquestionável.

Não foi o que eu vi hoje; não completamente.

O enterro da minha avó não foi uma cerimônia de gente escrachada dando gargalhadas, mas hoje, à beira de uma situação de choro descontrolado, vi um sorriso largo e alheio àquela dor e ao que acontecia ali que me deixou chocado e irritado. Faltou sutileza — real, verdadeira, genuína, não aquela dos códigos sociais — a muitas pessoas que não estavam envolvidas de fato com a cerimônia nem ligadas a laços fortes com os envolvidos.

Eu não queria falar com ninguém. Não queria me aproximar, nem deixar que se aproximasse, nenhuma das pessoas pelas quais eu não morreria.

E está aí uma definição crucial e que delimita, pra mim, o que é família.

Pra mim, que sempre carreguei silenciosamente no coração o sentimento de amor universal e, por isso, nunca concordei com a romantização que trata os clãs familiares como o ambiente sagrado cuja lealdade devemos sempre prestar, era muito difícil responder a uma grande questão pessoal: se fosse preciso, eu seria capaz de fazer qualquer coisa por qualquer pessoa?

Em uma situação extrema, até onde iriam os meus esforços para oferecer, em qualquer sentido, a minha própria vida pela necessidade de outra pessoa?

Hoje, sinto que encontrei uma primeira resposta.

Não é a descendência. Não são as relações interpessoais, não é a nossa opinião sobre alguém, não é o destino, não é afinidade.

São as escolhas. De algum jeito, em alguma escala, nós escolhemos as pessoas por quem, se necessário, abdicaríamos de nós mesmos.

Há algo tão sutil que faz com que nos importemos de maneira tal inexplicável com alguém! Eu olhava pro lado e identificava pessoas que se destacavam entre aquele aglomerado pela certeza que me davam, na comunicação silenciosa dos nossos corações, de que eram capazes de prestar seu devotado respeito, às suas maneiras, ao que acontecia ali.

Era somente elas que eu desejava ver ao redor. Eu sabia, e pude comprovar, que essas pessoas entregariam seu respeito genuíno àquele momento.

A certo modo, agradeço a todos que foram hoje, em suas intenções, (entre aspas) se despedir da minha avó. Entendo que a morte, (de longe) mais do que a vida, demanda atenção a condutas particularmente estranhas da nossa cultura, e que faz parte de ser quem somos, aqui onde vivo, estar presente nesse momento se você preza, minimamente, pelo relacionamento que tem com determinadas pessoas.

Mas, ah! O meu coração queria ter podido viver esse dia junto somente da minha família.


Esse texto foi originalmente postado aqui, no Medium.

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